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segunda-feira, 21 de maio de 2007

Existe Vida Antes da Morte?

“Cientificamente falando, a única certeza que temos de que algo está vivo é quando ele morre.” Quem disse isso foi um professor meu dos tempos de colégio. Confesso que gostaria muito mais de ter ouvido algo como carpe diem, mas... Bem, não sei se meu mestre continua certo ou não (nem mesmo as fantásticas teorias de Einstein estavam totalmente corretas), mas a força de sua afirmação me atingiu como um trovão.
Muito tempo depois, em junho de 1995, eu lia atentamente a edição de CONTOS DE SANDMAN nº 1 a bordo de um não muito confortável ônibus a caminho de minha casa. A cada página lida eu me tornava mais e mais cúmplice da irmã mais velha de Oneiros. Meus ouvidos quase conseguiam sentir o som de poderosas asas batendo perto de mim. Em muitos anos como leitor, aquela tinha sido a primeira vez em que uma história em quadrinhos conseguia mexer comigo. Em alguns aspectos, foi um dia terrível para mim, pois não conseguia tirar da cabeça a cena da Morte tirando o bebê do berço. Não me parecia justo...
Vida e morte. Dois lados opostos de um mesmo motivo, com a mesma intensidade. Morrer é tão natural quanto viver. Sim e não. Neste código binário celestial, todos nós nos rendemos diante de uma única e inevitável certeza, como uma demorada partida de xadrez cujo adversário nunca perde. O xeque é indefensável. Xeque-mate!
Acredito que todos nós já tivemos algum contato com a Ceifadora de Vidas, e sua presença é quase sempre acompanhada de um sentimento de impotência, medo (às vezes, ódio) e dúvida. Não há como evitá-la. Cedo ou tarde, ela sempre chega. É claro, há os que a desejam e aqueles que não a temem e vivem apenas para desafiá-la. Para eles, o sentido da vida pode ser apenas um detalhe ou a chave de um enigma muito maior. Seja como for, ela está sempre por perto, não pelo fato de ser uma emissária do fim da linha, mas por fazer parte da própria vida. Sem ela, a vida não tem sentido.
Sendo assim, vou postar aqui um artigo que fiz, com uma reflexão sobre a Morte, para uma disciplina do curso de Filosofia da Unisinos. Espero que gostem...

EXISTE VIDA ANTES DA MORTE?
—Miserere di me! — gridai a lui —
qual Che tu sii — od ombra od omo certo!
[1]
(Dante Alighieri, La Divina Commedia, 1999, p. 10)

Quem nunca quis morrer
Não sabe o que é viver
[...]
Viver é sair de repente
Do fundo do mar
E voar...
e voar...
cada vez para mais alto
Como depois de se morrer!
(Mário Quintana, Viver, 1997. p. 28)
Ela povoa a nossa imaginação. Oculta-se sob nossas camas. Rasteja nos obscuros recessos de nosso inconsciente primitivo. Não há fuga, não há refúgio a – coisa vai pegar você. A besta, o aniquilador, o Thanatos. O que é? Por que a tememos?
Qual é o seu nome?
A morte há muito inflama a imaginação romântica de sacerdotes e poetas. No entanto, quem é esse hóspede que habita a vida e que os vivos chamaram “morte”? Sempre presente, jamais familiar, sempre recusado, jamais afastado. Estranha convivência que deve ser aceita sem que nela se possa comprazer, estranho habitante que só se pode acolher repelindo. É dessa estranheza que importa cuidar sem esquecê-la jamais. O casal vida-morte parece ser de tal natureza que não se pode esquecer uma sem esquecer a outra. Aprender a manter juntos esses parceiros inimigos, não é isso em que nossa cultura chamamos “ética”? Com certeza. Religiões e filosofias lidaram e ainda lidam com esse casal, germe de que se nutrem suas mais ricas criações especulativas.
Peço desculpas por entregar tais especulações à sua sorte e por entregar-me, usando este espaço, a algumas divagações. Lembro-me agora de alguns discursos religiosos cristãos que vem constituindo ao longo dos séculos grande parte do pensamento Ocidental. Penso nas velhas beatas, já viúvas, ao se reunirem para rezar o terço, anunciavam: “Mais um dia se passou. Mais perto de Vós, meu Deus.” Sem dúvida em um pequeno espaço de tempo à morte havia habitado com elas. Estas avós haviam transfigurado sua morte e, ao mesmo tempo, sua vida: a daquele corpo ameaçado e precário. Aquele corpo destinado à morte anunciava um outro: o corpo glorioso dos ressuscitados, um outro e no entanto o mesmo, mas eternamente vivo.
Não obstante, temos a ameaça de habitarmos, com esse corpo eterno, um outro lugar que não esse ao lado de Deus no Paraíso. Com a criação do Purgatório na Idade Média pela a Igreja e o já existente Inferno, ilustrado posteriormente pelo poeta italiano Dante Alighieri (1265–1321), o Paraíso se torna uma dádiva e não um consolo para a morte. Em A Divina Comédia de Dante a entrada do Inferno é assinalada por uma porta sinistra que se acha encravada no fundo de uma espécie de caverna ou gruta. Nessa porta em letras escuras (Canto III), encontrou o poeta a famosa e imortal legenda que termina com este verso tantas vezes citado: Lasciate ogni speranza, voi ch’entrate[2] (Alighieri , 1999, p. 17).
A esperança das avós em conquistar o Paraíso por vezes causava preocupações. Elas viviam sua esperança no temor e no tremor. Não haviam lido Dante e nem Platão, ignoravam a morte de Sócrates e a encenação que aquele grande homem de teatro havia produzido no Fédon. Lá fora dito “O corpo é um túmulo” (soma sema) e a alma, esse princípio de vida, devia aprender a dele se libertar e a pensar a morte como o momento da libertação.
Há muito tempo não tenho mais esperança na imortalidade. Tento viver a vida simplesmente na plenitude de qualquer presente que se ofereça. Freqüentemente me pego sonhando em um outro sentido, de modo algum mágoa, que poderiam tomar estas palavras: soma sema. Sema não queria dizer túmulo mas, segundo seu sentido próprio, signo, marca ou sinal. Gostaria muito de entender soma sema como “corpo significante”. E logo descubro que não tenho nenhuma necessidade de forçar-me a isso. Que meu corpo seja significante, isso ele próprio me ensina com sua mera presença. Desde sua vizinhança e em sua singularidade, ele significa minha relação com o mundo e com tudo o que se pode oferecer como não sendo eu: as coisa e os outros. Ele me aponta os caminhos capazes de me levar em direção a eles. Além disso, um corpo humano vivo dá sempre sinal para si mesmo assim que preserva em sua integridade, isto é, na medida em que continua a manter-se vivo.
Quanto à pergunta proposta pela a avaliação penso, eu mesmo, não gostar de algumas respostas, pois como diz Larosa (2003), devemos nos exercitar no silêncio e não perguntar a quem sabe a resposta, nem se quer a parte de nós mesmos que sabe a resposta, porque a resposta poderia matar a intensidade da pergunta e o que nela se agita. Se nós mesmos a perguntamos. Porém, tal reflexão [da morte] me leva a pensar em uma frase “Cuide de sua vida, a morte é tão permanente”, o que poderia ser entendido de outro modo: “Cuide de sua morte, a vida é tão frágil”. Da morte não há nada a temer nem a esperar. Apenas o mundo e os vivos podem ser fonte de inquietude, temor ou esperança, só deles importa cuidar.
Restam os mortos: os outros mortos tão numerosos e tão cotidianos. Uma lembrança quase que sem importância e nada digna de comentários cotidianos, talvez aqui ganhe algum significado. No inverno de 2002 eu estudava espanhol no centro universitário da Feevale, em Novo Hamburgo, onde no intervalo gostava de me sentar em frente ao prédio da fisioterapia. Lá por vezes me deparava com alguns dos cadáveres, que via através da janela, que eram estudados pelos alunos. Talvez ali eu tenha começado a minha meditação sobre a morte. E a pensar o século em que vivemos, marcado pelo Terror e por tantas outras catástrofes. Tanto que me coloco esta questão: como pensar em todos esses corpos mortos? São eles apenas cadáveres abandonados à destruição, fadados à fumaça e às cinzas? Por isso não consigo decidir-me. Todo corpo que foi vivo foi significante. Por mais modesta e fugidia que tenha sido sua relação com o mundo, ele abriu e construiu um caminho, nele deixou rastro. Esse rastro sobrevive; está marcado embora apagado. Reavê-lo, fazê-lo reviver, é tarefa dos vivos. Estes só podem continuar a viver se despertarem os rastros dos corpos mortos. É a única forma de imortalidade que posso conceber; é por isso que não conto nem os dias nem as horas que me separam da morte. Neste mundo inscrevo meus passos.

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[1] Tradução: Tem compaixão de mim! — gritei-lhe — quem quer que sejas — sombra ou vivente![2] Tradução: Deixai toda esperança, vós que entrais.

3 comentários:

Daniel Cunha disse...

Algumas pessoas estão me perguntando “o que é esse tal de Thanatos”?
Então lá vai:
Na mitologia grega, Tânatos era a própria personificação da morte, enquanto Hades reinava sobre os mortos no submundo.
Tânatos era irmão gêmeo de Hipnos, o Sono e filho de Nix, a Noite e Érebo, as trevas. Era representado como uma nuvem prateada ou um homem de olhos e cabelos prateados.
Tânatos tem um pequeno papel na mitologia, sendo eclipsado por Hades
Tânatos também pode ser escrito como "Thanatos".

kenia disse...

Existe Vida Antes da Morte?
Bem, Daniel, acho que "vida" é um termo que passa por nós e para cada um de um jeito diferente, "estar vivo" então é de tamanha subjetividade que não há explicação que a alcance...
Entretanto, acredito que só conseguimos dar tanto e diferentes valores para a "vida" porque dela se vislumbra também o fim a "morte". Já pensou que terrível seria vivermos sem um dia morrermos? Que loucura seria a imortalidade?
Então, existe sim vida antes da morte, mas só há porque dela se espera um fim...
Kênia Carvalho

ggimenez disse...

Daniel, este assunto é muito complexo.Creio que cada um acredita no que mais lhe convém, sendo assim, eu particularmente, creio que existe vida após a morte, não consigo conceber que aqui tudo termina, ou seja , que a morte é o fim de tudo. O que me parece é que o corpo, que usamos, esse sim tem fim, mas nós somos mais que meros corpos, somos alma e como Almas somos imagem e semelhança à Alma Suprema e renascemos em determinado tempo e lugar para podermos nos redimir. Sim, existe vida antes de Thanatos e depois também.