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segunda-feira, 28 de maio de 2007

Liberdade ou Liberdades?

Meus pensamentos, disse o viajante à sua sombra, devem me mostrar onde estou, mas não devem descobrir até onde vou. Amo o desconhecimento do futuro e não quero perecer por causa da impaciência e do custo antecipado das coisas prometidas.
(Nietzsche)

Para começar a falar sobre liberdade penso que devemos começar meditando sobre a falta dela e não por ela em si. A liberdade é com freqüência uma muralha a ser derrubada ou um direito a ser conquistado. Não seria também uma exigência feita a todos nós de inventar sua vida?
Em séculos e mais séculos de um uso indevido das palavras, de uma banalização desenfreada, onde elas corrompem e são elas mesmas corrompidas torna-se quase impossível utilizá-las. Mas o que está acontecendo é que estamos ficando sem palavras para dizer o insuportável e para afirmar o nosso querer viver. Em verdade, não há nada mais comum, ambíguo, suscetível e mal-entendido do que a reivindicação da defesa da liberdade. Palavra liberdade que, não raramente, nos soa falsa quando a escutamos e ao pronunciá-la é desprovida de qualquer sabor. Mas às vezes ela se oferece a alguém que desejaria apresentá-la como uma nova verdade, como um novo sabor, ainda que para ele seja preciso primeiro libertar a liberdade de todas essas falsificações que se aderiram a ela e que secretamente a povoam. Quanto ao conteúdo, à própria definição da palavra “liberdade” (que, cantada, não deixa ninguém indiferente), mudam não só em função das épocas, das situações, mas também segundo a idade e o momento de cada um. É por isso que podemos somente falar de nossa liberdade, neste instante preciso.
Se a noção comum de liberdade é a de um livre arbítrio ou a de uma vontade livre, a de uma vontade que não se deixa determinar nem pela fatalidade de um destino nem pelas outras vontades diferentes da sua, o que habitualmente se pensa como liberdade é a potência do sujeito, seu poder de representar-se a si mesmo, de determinar-se a si mesmo, de ser causa de si mesmo. Por isso a liberdade se representa como a propriedade ou o atributo de um sujeito que é dono de seus pensamentos, de seus atos, de seu futuro; de um sujeito que é consciente de si mesmo, dono de si mesmo.
A liberdade continua sendo no entanto um desafio essencial, a merecer todos os nossos cuidados. Se o esquecemos ou o desdenhamos, ainda nos arriscamos a morrer, de outro modo, não nos transes de uma impossível façanha, mas sem brilho, amordaçados pelo conformismo e o tédio, embrutecidos pelas preocupações, sobrecarregados de tarefas, entorpecidos por falatórios telefônicos, alucinados por um mundo que nos escapa, dia após dia. Anestesiados.

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