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sábado, 25 de outubro de 2008

Livraria do Trem

Caros amigos
Estou publicando aqui uma entrevista (na íntegra) feita por e-mail para Site Transforma o Mundo Unisinos, projeto da disciplina Jornalismo Online II.


1. De onde surgiu a idéia de abrir uma livraria que vende livros usados, e quem surgiu com essa idéia?
Na verdade a paixão do proprietário pelas Livrarias de Sebos já vem de longa data. Em São Leopoldo, Daniel Cunha acompanhou a Livraria Esquina das Letras nas suas diversas fases, sempre procurando títulos do seu interesse, dentre eles principalmente os livros de Ficção Científica. Ao ser desmembrada a Esquina das Letras (separação entre o sebo e os livros novos), se originou a Livraria do Trem (livros usados) sob direção de Renato Almendares que criou um espaço alternativo à noite freqüentado por diversas pessoas ligadas a área da Cultura em São Leopoldo (a Livraria passou a abrir a partir das 18h). Em dezembro de 2007, Daniel Cunha assumiu a Livraria. O espaço entrou num período de reforma e revitalização (foco principal: trabalho com o livro). Em fevereiro de 2008, o espaço foi reinaugurado. Houve a manutenção do espaço alternativo da noite que funciona como um ponto de encontro das pessoas vinculadas à área da cultura em São Leopoldo e foi iniciado um trabalho com a Livraria-café durante o dia. Importa dizer que a nossa estrutura de café é bem inicial, uma vez que procuramos intensificar o trabalho com o livro e o comprometimento com o público leitor. Durante a noite temos a intenção de intensificar as atividades artísticas-culturais com o apoio de várias pessoas que já freqüentam o espaço a longa data (construção da gestão anterior). A Livraria aos poucos está apoiando alguns eventos de cunho cultural na cidade. Desta forma, deixamos claro dois de nossos objetivos: a intensificação do trabalho com o livro e a promoção/articulação de atividades que fomentem a cultura no município.

2. Como os livros são recebidos pela livraria?
Os livros chegam à Livraria de duas formas: por meio dos próprios clientes e/ou demais pessoas que visitam a Livraria com o intuito de vender ou trocar livros (geralmente avaliamos se os títulos que a pessoa está trazendo são ou não do nosso interesse naquele momento); através de pesquisa e busca de alguns títulos em outras Livrarias da Região. Na verdade, estamos iniciando este trabalho, pois a Livraria é um projeto recente. Estamos construindo um banco de dados dos nossos clientes e neste banco colocamos títulos que as pessoas estão procurando. A intenção é firmar parcerias com outros sebos no sentido de buscarmos estes títulos, ou seja, pensamos que a Livraria deve construir uma relação com o leitor no sentido da procura do livro (títulos raros ou não).

3. Como é o funcionamento da livraria no que diz respeito aos processos (desde a chegada do livro usado até a sua venda)?
Atualmente, trabalhamos com o livro da seguinte forma: revisão (checamos o estado de conservação, verificamos se nenhuma página foi arrancada e se o livro não foi retirado de uma Biblioteca); avaliação (estabelecemos o preço de compra e o preço de venda); higienização (limpamos e recuperamos o livro sempre que necessário); catalogação no banco de dados; exposição do livro na Livraria.

4. Quem é o proprietário da livraria?
O proprietário da Livraria se chama Daniel Cunha.
Em sua trajetória profissional atuou na área de vendas e merchandising, na área do Teatro e como bolsista de Iniciação Científica na Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em uma pesquisa que discutia as relações entre História e Imagem. É estudante do Curso de História nesta mesma Universidade e os seus interesses de pesquisa estão diretamente relacionados com a História da Arte. Atualmente, além de administrar a Livraria, Daniel trabalha com artes gráficas e desenho publicitário.

5. Quais são os horários da livraria?
A Livraria funciona nos seguintes horários:
- De segunda a sexta-feira: das 8h30min às 12h; das 13h às 23h;
- Nos sábados: das 9h às 13h.

6. Há na livraria um espaço para leitura? Como ele funciona?
Na verdade, devido o espaço físico ser restrito não temos um local específico para leitura. Porém, algumas pessoas que freqüentam a Livraria durante o dia gostam de utilizar o espaço do café para leitura e estudo.

7. Em sua opinião, o que atrai o público para a Livraria do Trem?
Acreditamos que o público é atraído pelas seguintes razões: preços mais baixos; a busca por títulos raros e esgotados; a carência de ambientes como este na cidade. Em contrapartida, muitas pessoas estão conhecendo a Livraria do Trem aos poucos. O ambiente do café com a Livraria é de certa forma uma “novidade” na cidade. Sem contar que firmar-se enquanto Livraria em São Leopoldo é um desafio. Temos uma tradição de longa data de uma associação mais ou menos direta entre Livraria/Papelaria. Logo que abrimos a Livraria muitas pessoas nos procuravam para saber se tínhamos folha de ofício, caneta, caderno para venda. Além disto, a idéia do café faz com que algumas pessoas pensem que os livros não estão à venda, de que se trata de uma Biblioteca. Enfim, o desafio é diário, Mas aos poucos estamos colhendo os frutos do trabalho.

8. Há livros novos para venda?
Estamos iniciando um cadastro em várias distribuidoras, pois pretendemos implementar um trabalho com o livro novo sob encomenda (mas provavelmente iniciaremos este projeto em meados de 2009). Temos alguns livros novos de autores locais independentes. Esta é uma forma de apoiarmos a produção local. Tivemos o lançamento do Livro “Partes de vida” do autor Udo Ingo Kunert. No dia 06 de novembro teremos o lançamento do livro “Nietzsche O Professor” do autor Elenilton Neukamp.

9. Qual o preço médio dos livros? Como é elaborado um preço para o livro usado?
Variam de R$ 5,00 a R$ 20,00. O preço é elaborado sempre mediante uma pesquisa.

10. Quantos funcionários trabalham na livraria?
Atualmente quatro pessoas atuam na Livraria (contando com o espaço do Cyber).

11. Em função do preço mais baixo do livro, isso tem ajudado as pessoas que possuem menos condições financeiras para adquirir um livro novo?
Com certeza. Algumas pessoas procuram o sebo em função do preço e pela necessidade de adquirem um título. Em contrapartida, vários “leitores de carteirinha” procuram títulos raros, edições antigas, enfim. A questão que nos preocupa é justamente os contornos que a leitura vai ganhando em tempos de proliferação de imagens e de excesso de informação. A cultura do livro, o prazer pela leitura, parece envolver um grupo muito restrito de pessoas.

12. Qual é o público alvo da Livraria do Trem?
Com certeza o público leitor. Porém, temos a intenção de atender os mais diversos segmentos dentro deste público. E é justamente por este motivo que iniciamos o cadastro de pessoas que visitam a Livraria em busca de títulos. É claro que muitas pessoas ainda não conhecem o nosso trabalho e o nosso espaço. Sem contar que muitas pessoas procuram as Livrarias de Sebo de Porto Alegre (pela tradição, pela variedade, pelos títulos). Criar a tradição aqui é um dos nossos objetivos, mas este é um trabalho gradativo e moroso.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Perde o gato


Carlos Drummond de Andrade


Um jornal é lido por muita gente, em muitos lugares; o que ele diz precisa interessar, senão a todos, pelo menos a um certo número de pessoas. Mas o que me brota espontaneamente da máquina, hoje, não interessa a ninguém, salvo a mim mesmo. O leitor, portanto, faça o obséquio de mudar de coluna. Trata-se de um gato


Não é a primeira vez que o tomo para objeto de escrita. Há tempos, contei de Inácio e de sua convivência. Inácio estava na graça do crescimento, e suas atitudes faziam descobrir um encanto novo no encanto imemorial dos gatos. Mas Inácio desapareceu — e sua falta é mais importante para mim, do que as reformas do ministério.


Gatos somem no Rio de Janeiro. Dizia-se que o fenônemo se relacionava com a indústria doméstica das cuícas, localizada nos morros. Agora ouço dizer que se relaciona com a vida cara e a escassez de alimentos. À falta de uma fatia de vitela, há indivíduos que se consolam comendo carne de gato, caça tão esquiva quanto a outra.


O fato sociológico ou econômico me escapa. Não é a sorte geral dos gatos que me preocupa. Concentro-me em Inácio, em seu destino não sabido.


Eram duas da madrugada quando o pintor Reis Júnior, que passeia a essa hora com o seu cachimbo e o seu cão, me bateu à porta, noticioso. Em suas andanças, vira um gato cor de ouro como Inácio — cor incomum em gatos comuns — e se dispunha a ajudar-me na captura. Lá fomos sob o vento da praia, em seu encalço. E no lugar indicado, pequeno jardim fronteiro a um edifício, estava o gato. A luz não dava para identificá-lo, e ele se recusou à intimidade. Chamados afetuosos não o comoveram; tentativas de aproximação se frustraram. Ele fugia sempre, para voltar se nos via distantes. Amava.


Seria iníquo apartá-lo do alvo de sua obstinada contemplação, a poucos metros. Desistimos. Se for Inácio — pensei — dentro de um ou dois dias estará de volta. Não voltou.
Um gato vive um pouco nas poltronas, no cimento ao sol, o telhado sob a lua. Vive também sobre a mesa do escritório, e o salto preciso que ele dá para atingi-la é mais do que impulso para a cultura. É o movimento civilizado de um organismo plenamente ajustado às leis físicas, e que não carece de suplemento de informação. Livros e papéis, beneficiam-se com a sua presteza austera. Mais do que a coruja, o gato é símbolo e guardião da vida intelectual.


Depois que sumiu Inácio, esses pedaços da casa se desvalorizaram. Falta-lhes a nota grave e macia de Inácio. É extraordinário como o gato "funciona" em uma casa: em silêncio, indiferente, mas adesivo e cheio de personalidade. Se se agravar a mediocridade destas crônicas, os senhores estão avisados: é falta de Inácio. Se tinham alguma coisa aproveitável era a presença de Inácio a meu lado, sua crítica muda, através dos olhos de topázio que longamente me fitavam, aprovando algum trecho feliz, ou através do sono profundo, que antecipava a reação provável dos leitores.


Poderia botar anúncio no jornal. Para quê? Ninguém está pensando em achar gatos. Se Inácio estiver vivo e não seqüestrado, voltará sem explicações. É próprio do gato sair sem pedir licença, voltar sem dar satisfação. Se o roubaram, é homenagem a seu charme pessoal, misto de circunspeção e leveza; tratem-no bem, nesse caso, para justificar o roubo, e ainda porque maltratar animais é uma forma de desonestidade. Finalmente, se tiver de voltar, gostaria que o fizesse por conta própria, com suas patas; com a altivez, a serenidade e a elegância dos gatos.

Crônica extraída do livro "Cadeira de Balanço"
Ed. José Olympio