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sábado, 18 de julho de 2009

São Leopoldo Fest vs Feira do Livro

Após a São Leopoldo Fest teremos talvez não o “maior”, mas um dos mais importantes “eventos” de São Leopoldo (pelo menos assim deveria ser considerado e as políticas públicas assim o celebram): a Feira do Livro da cidade.
Em tempos de velocidade exacerbada, volatilidade, descartabilidade, planejar uma Feira do Livro exige um olhar atento para o lugar ocupado pela leitura no cotidiano da cidade. Consideramos que este é um dos momentos mais importantes do nosso cotidiano urbano. Criar uma cultura da leitura e do livro pressupõe o entendimento de que apreciar uma feira requer uma parada, como o fazem inúmeros “ratos” de Biblioteca, de sebos, de livrarias de livros novos... Ler, como diria Larrosa, é “demorar-se, é enfiar-se na leitura”. Portanto, exige um trabalho minucioso antes, durante e após a Feira do Livro.
Uma Feira do livro não pode ser um simples lugar de passagem (o que vem ocorrendo ano após ano no município). As pessoas passam rapidamente pelos livros, compram uma daquelas maletas com livros de qualidade literária e editorial duvidosa e dirigem-se para a praça de alimentação e/ou para apreciarem as atrações artísticas.
Isto fala sobre o lugar ocupado pelo livro no cotidiano de nossos leopoldenses e no cotidiano de nossas políticas públicas. Como bem diz um escritor conhecido nosso, que tem realizado um trabalho interessante na área da literatura —leitura de contos nas portas das fábricas e nos lugares que seriam considerados os mais inusitados—, “não tenho como gostar daquilo que não conheço”. A população opta por aquilo que o mercado cultural acaba financiando, disseminando e legitimando. Horrores são gastos ano após ano com atrações que se pulverizam logo após concluídas. E depois nos perguntamos: por que será que tantos brasileiros sofrem de um “analfabetismo funcional”, ou seja, mesmo tendo passado pela escola mal conseguem ler, escrever e interpretar textos simples? Interpretar!!!! Talvez fosse muito mais cômodo não ser capaz de interpretar algumas coisas. Talvez a vida fosse mais fácil!!!!
Como expus em outro momento no blog “ler devia ser proibido”, porque através da leitura passamos a questionar o nosso entorno e tudo aquilo que é considerado natural. Nietzsche já nos dizia “Inventamos as verdades, esquecemos que inventamos, esquecemos que esquecemos”.
Numa sociedade letrada como a nossa ninguém ousaria duvidar da importância do livro e da leitura. Porém, nos perguntamos: qual a importância do livro e da leitura nas políticas culturais de São Leopoldo? O que os leopoldenses esperam da próxima Feira do Livro da cidade? Ou teremos que continuar visitando ano após ano apenas a Feira do Livro da capital?
Esperamos que logo após a celebração do “maior” evento de São Leopoldo —a São Leopoldo Fest—, possamos celebrar com muita seriedade um dos “eventos” (é muito mais do que um “evento”) mais importantes da cidade: a Feira do Livro local!

10 comentários:

Anônimo disse...

Gostei muito do texto! Na verdade, temos algumas inversões na nossa sociedade... quem trabalha com livros deve saber bem isso.
Valeu...

Anônimo disse...

Não levo muita fé na feira do livro de São Léo...

Anônimo disse...

É se for igual a do ano passado....
melhor ficar com a da capital.

Reflexo d Alma disse...

Eiiii!
Estou passando agora pra conhecr seu espaço...comento daqui pra mais tarde.
Se gostar de poesia simples
vai ser uma honra se passar no meu canto.
Bjins entre sonhos e delirios

Adriana disse...

Sabes que não gosto do lugar onde é realizada a feira? Acho que deveria ser dedicado um espaço assim como o da São Leopoldo Fest, ou em "casinhas" no centro , como era Porto Alegre antigamente....sei lá.

Cláudia B. disse...

Bacana o teu texto. Trabalho em uma editora de Porto Alegre e já estive em São Leopoldo conversando com o pessoal da Cultura e também da Educação. Pude perceber uma preocupação de fazer neste ano uma Feira melhor do que as anteriores, inclusive com uma maior diversificação do material (os livros) disponibilizado, pois hoje em dia as livrarias sobrevivem dos bestsellers e acabam deixando de lado diversos outros títulos de interesse do público. A leitura vêm tornando-se um bem de consumo e não um bem cultural. Mesmo na Feira de Porto Alegre nos deparamos com bancas iguais,lado a lado, privilegiando títulos que somente por seu marketing já vendem. Acredito que a formação de leitores e a capacitação de mediadores de leitura é fundamental para a sobrevivência do livro e da cultura em geral, e e nisto que trabalho. As Feiras podem ser um espaço muito propício para levantarmos este tipo de questão e é preciso que ele não seja desperdiçado!

Abraços!

Daniel Cunha disse...

Cláudia
Estamos discutindo várias questões com o poder público local sobre o livro e a leitura. Como livreiro a minha maior intenção é justamente qualificar o trabalho com o livro no município. Para tal, é preciso uma retomada das políticas públicas já existentes que contemplam vários pontos sobre a economia do livro. È muito difícil uma pequena livraria sobreviver hoje dentro desta indústria cultural. Infelizmente, muitos donos de pequenas livrarias acabam trabalhando apenas com os livros mais vendidos e/ou transformam seus espaços em papelarias. É claro que não tenho como intenção “condenar” os bestsellers, até porque isso cairia numa crítica esvaziada. Como livreiro, trabalho com os mais variados títulos (inclusive com os mais vendidos). Porém, acredito que o grande problema é quando o espaço de uma livraria deixa de ter um compromisso cultural com o público leitor. Estamos realizando um trabalho qualificado neste sentido, inclusive vendendo vários títulos de autores locais que, na maior parte das vezes, não encontram espaço para a divulgação de suas obras.
Quando falo da Feira do Livro da Capital não significa que lá não existam várias bancas iguais (sendo que algumas delas priorizam apenas os livros de maior circularidade). Porém, encontramos uma gama enorme de títulos de Filosofia, Sociologia, História, Arte, Literatura Brasileira, Literatura Estrangeira, dentre outros. A Feira do Livro é esperada e visitada por milhares de pessoas.
Em São Leopoldo temos um longo trabalho pela frente! E para que o trabalho se efetive é preciso que a Feira do Livro seja considerada um dos momentos culturais mais importantes da cidade (sob o ponto de vista organizacional, de divulgação, de comprometimento com o livro e com a leitura). Como comentei no post, precisamos nos perguntar sobre o lugar ocupado pelo livro no cotidiano dos leopoldenses e no contexto das políticas públicas.
Acredito num trabalho sério neste sentido. Se não acreditasse, não estaríamos trabalhando tanto no espaço da livraria. Estamos praticamente nadando contra a maré.
Agradeço os seus comentários e espero que possamos continuar a conversação.

Cláudia B. disse...

Olá, Daniel!
É isso aí. Acredito que o fortalecimento das pequenas livrarias, assim como das pequenas editoras (no caso da que trabalho) deve ser incentivado e valorizado. Infelizmente, apesar de todo esforço que fazemos, é complicado competir com as "grandes". Não condeno de forma algumas os bestsellers, possuo alguns em meu acervo pessoal e não devemos desvalorizar a obra, como muitas vezes acontece, só porque ela tem uma mídia em cima. Mas digo que não podemos nos detêr somente nestas obras, pois há muita coisa de qualidade no mercado, sem tanto espaço e divulgação à disposição do público.
É importante que políticas públicas sejam retomadas, mas sabemos que muitas vezes é da comunidade que surgem soluções para diversas questões, inclusive do livro. Vejo muitas escolas fazendo projetos de leitura independentes, por cansar de esperar o auxílio "de cima". Ainda bem que ainda tem gente que se preocupa com isso!
A Feira de Porto Alegre está consolidada no caléndário de eventos não só da cidade mas do país, é aguardada durante o ano todo não só pela oportunidade de se comprar livros mais baratos, mas principalmente pela carga de eventos paralelos e atividades culturais e educacionais da programação. Vemos os esforços da Câmara para o sucesso do evento, que é impecável sem dúvida e um belo exemplo de como o livro pode ser desencadeador de diversas possibilidades de se adquirir e produzir cultura.

Leandro Coimbra disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Leandro Coimbra disse...

No ano passado chegava a haver uma melancolia no ar.
Fui convidado por dois colegas a falar sobre Machado de Assis (em função do centenário de morte). O fizemos por três dias, abordando temas diferentes. Só não falamos para as paredes porque sempre há amigos para prestigiar e uma ou outra turma de professores que comparecem com seus alunos.
Algo me chamou atenção: a quantidade de panfletos que vi amontoados por alguns lugares e que tinham sido distribuídos, segundo me contavam, até mesmo na semana da feira.
Enfim, sei do esforço dos colegas que trabalham no centro cultural. Como e por que os criticar? A quem devo criticar, então?
Minha autoestima passa pela saúde cultural da minha cidade. Temo que haja um comodismo de esquerda e que se pense que o povo está contente. Não estará logo-logo, pois assim como se viu em Porto Alegre, os referenciais se perdem.
Quando o povo deixa de comparar gestões, é hora de surpreender. Será que a administração popular ainda se preocupa em fazer isso?
Espero, de coração, que sim.

belo texto Daniel.
Parabéns pela proposta do debate.