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terça-feira, 23 de março de 2010

Cliente nosso de cada dia VIII

Gó...Gol

“Como não conseguimos ver o nosso próprio nariz, temos a tendência para olhar o mundo na sua perspectiva”.
Nikolai Gógol


Num fim de tarde de um sábado de futebol, quando o movimento de leitores na livraria é igual ao de uma biblioteca em dia de feriado, entra um critico literário conhecido do meio. Daqueles que dão poucas estrelas aos livros e se pudessem davam cinco estrelas às suas próprias críticas. Apanhando-me completamente distraído a ouvir no computador o Grenal e com a cara enfiada num livro, comenta:
- Muito bem! Lendo Nikolai Gógol, Contos de São Petersburgo?
Tentando disfarçar e baixando o som do rádio.
- Boa tarde. Olhe, como não posso ver a bola, estou lendo uns contos russos.
Completamente indiferente ao futebol, corrige:
- Gógol não era russo! - E acrescenta: nasceu em 1809, em Sorotchinski, na Ucrânia e morreu em 1852, em processo de ascese e grande sofrimento. Aliás, aquilo a que você chama contos russos é o que se convencionou chamar Histórias de Petersburgo, e que consistem nas seguintes cinco: Avenida Névski (1841), Diário de um Louco (1834), O Nariz (1836), O Retrato (1841) e O Capote (1841). E esta é uma etapa específica da obra de Gógol, que se segue às suas histórias fantásticas ucranianas… - A partir daqui deixei de ouvi-lo – … é inevitável referirmos as correntes literárias em que se inspira Gógol para a feitura destas histórias de Petersburgo: os elementos fantásticos, por vezes místicos, aproximam-se do romantismo, sobretudo alemão; alguns elementos destas histórias, por exemplo O Nariz, com a situação da perda de uma parte do “eu”, lembram de fato o aparecimento do duplo hostil, o rival, da História Fabulosa de Peter Schlemihl… - Vindo do computador, muito baixinho, ouve-se o som do rádio: “William falha escandalosamente!...” – … em O Sistema Poético de Gógol, Moscovo, 1978, Iúri Mann escreve que as ligações genéticas dos contos de Gógol com a literatura do romantismo já estão suficientemente estudadas pela crítica, O que faltava era descobrir a mudança fundamental que esta tradição sofreu em Gógol. Este, diferentemente dos românticos… - “Gol do Internacional, merda!” – … nunca introduz o fantástico no plano do presente histórico, existe só no passado representado por lendas e relatos problemáticos; no presente, fica apenas uma influência dele. E também, para Gógol, o fantástico/diabólico não é milagre, é antes o não humano, ou desumano. O fantástico é suplantado pelo absurdo, e o absurdo manifesta-se e revela-se como o quotidiano da vida que, em si, é anormal: a vida moderna, … - “ia sendo quase, quase, gol do Grêmio!” – … a vida da grande urbe, personagem principal dos cinco contos de Petersburgo. São de fato cinco histórias maravilhosas. E você o que é que acha de Gógol?
- GÓ, GÓG, GOL DO GRÊMIO!!!!

segunda-feira, 22 de março de 2010

Cliente nosso de cada dia VII

No creio en brujas, pero que las hay, las hay


Entra um cliente de aparência estrangeira e com ar misterioso.
- Bom dia! É capaz de me dizer qual dos meus ouvidos está zumbindo?
- Como!?...
- Se é capaz de adivinhar qual dos meus ouvidos está zumbindo?
O livreiro meio hesitante, responde:
- O direito.
- Bravo! Acertou!
- Claro!... Eu possuo o dom de adivinhar. Porém, qual era o seu interesse em que eu adivinhasse?
- Há uma tradição, na minha terra, segundo a qual, se um fulano adivinha que ouvido está zumbindo a outro, é certo virá a realizar-se aquilo que no momento da adivinhação deseja o proprietário do ouvido.
- E o que deseja o senhor?
- Que me diga que tem um livro que eu sei que está esgotado.
O livreiro, encolhendo os ombros, sorriu:
- Sim, diga lá então... Qual é o livro?
- Sobre direção de cinema, de David Mamet.
O livreiro abrindo muito os olhos, sacudindo a cabeça ligeiramente para trás, completamente atônito, pergunta:
- Como é que adivinhou que temos um exemplar que acabaram de vir trocar?
- Não fui eu que adivinhei, foi você.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Cliente nosso de cada dia VI

Puericultura é...



Um livreiro novato e após os seis meses de formação, enfrenta pela primeira vez o balcão. Bastante nervoso como é hábito nestas ocasiões, tem pela frente uma das suas primeiras clientes.
– Por favor, tem livros sobre puericultura?
- Tenho sim. Queira, por favor, ver junto à secção de agricultura.
Respondeu o novato com muita certeza do que dizia. A senhora, sem acreditar no que ouvia, observa:
– Desculpe! O que é que a agricultura tem haver com os meus netos?
A resposta do novato não se fez esperar:
– Então!?... Puericultura não é criação de... (corando) Porcos?

terça-feira, 16 de março de 2010

Cliente nosso de cada dia V

Sócrates me faz perder clientes


De vez em quando, tão certo como a noite suceder ao dia, aparece alguém que pede:
- Queria as Obras Completas de Sócrates?
Perante tal pergunta, em tom de graça, o livreiro questiona:
- O Sócrates o filósofo?
O cliente com pouca paciência e não achando graça nenhuma, responde:
- Evidentemente que estou falando do filósofo.
Respondendo à provocação, de sorriso nos lábios:
- Infelizmente, meu caro senhor, Sócrates, o filósofo, não nos deixou uma única linha escrita.
Incrédulo, o cliente muito irritado, abanando a cabeça num movimento de lamento, exclama:
- É por causa de gente como você que este país não anda para a frente!
E sai porta fora.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Livrarias: espécie em extinção?

O post abaixo foi publicado no Blog da Traça (um grande sebo de Porto Alegre / RS) e vale divulgar, pois estes fatos não podem simplesmente passarem despercebidos.

Extinção - Parte 2
Autor: Rabujo
Data: 27/01/2010

Ontem mostrei aqui um link de um site de notícias financeiras com uma
matéria sobre as dificuldades da Borders, uma grande rede de livrarias
norte-americanas.

Hoje repetirei o expediente preguiçoso de indicar um link, juntando
apenas um breve comentário. Desta vez a matéria é sobre Laredo, uma
cidade de 250.000 habitantes no Texas, que acaba de perder sua única
livraria, uma filial da B. Dalton, controlada pela Barnes&Noble, a
maior rede do ramo nos US.

Veja a matéria em http://www.cnn.com/2010/LIVING/01/22/laredo.books/index.html?hpt=Sbin

A longo prazo, acredito que o efeito sobre a cidade é grande, rebaixando seu clima cultural e as perspectivas dos moradores. Como este não é um caso isolado, estamos vendo uma profunda mudança cultural, com as pessoas ficando totalmente dependentes da Internet para obter informação e leitura. Como a natureza da web é a da horizontalidade, isto é, muita informação e pouca profundidade, este novo mundo é mais burro, menos reflexivo e mais infantil do que o antigo universo de papel.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Capa para Tese II


Capa para Tese de Doutorado em Educação.

Título: As crianças de seis anos no ensino fundamental de nove anos prática de governamento da infância.
Doutoranda: Maria Renata Alonso Mota
Orientador: Alfredo Veiga-Neto
UFRGS2010
Linha dos Estudos Foucaultianos em Educação

Arte Gráfica (Capa): Daniel Cunha
Foto: “Criança Wai-Wai” de Tiago Orihuela