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quinta-feira, 22 de maio de 2014

Annie Leibovitz: A Vida Através das Lentes



O que é uma resenha? Esta não é uma boa pergunta. Afinal de contas todos nós sabemos o que é uma resenha. Sim e não. Uma resenha é a abordagem que o redator faz sobre um determinado objeto analisado por ele, onde são descritos e enumerados aspectos considerados relevantes na intenção de apresentar este objeto para outros que possivelmente não o conheçam. Mas, o que tudo isto tem haver com o documentário Annie Leibovitz: a vida através das lentes? Na verdade é isto que pretendo explicar.



Ao assistir este documentário, em sala de aula, muitas perguntas se desenharam mentalmente ao longo da exibição. Para descrever algo a outros é necessário ter visto este algo. Porém, ver não pressupõe ter algo a dizer. Pois, percepção requer envolvimento. Mas, por hora deixarei para abordar este aspecto mais adiante no texto.
O documentário trata da vida e obra de Annie Leibovitz, uma das mais famosas fotógrafas de nosso tempo, responsável pelas inimagináveis capas da revista Rolling Stone. Uma celebridade das celebridades. Leibovitz é conhecida por retratar grandes artistas e celebridades de uma forma peculiar e única. Porém, este documentário extrapola as discussões sobre o glamour e a riqueza do mundo das estrelas e da moda. A vida através das lentes de Annie Leibovitz aborda a história de uma artista que se confunde com a sua própria arte, a arte de fotografar. Neste filme nós temos uma incontestável aula de fotografia que nos possibilita uma reflexão sobre o fazer fotográfico.
Ao longo do documentário começamos a conhecer o trabalho de uma então jovem fotógrafa e junto com ela vamos conhecendo a história de uma das maiores revistas de música e cultura popular de todos os tempos a Rolling Stone. É praticamente impossível falar de uma sem mencionar a outra. A Rolling Stone e o trabalho de Leibovitz nascem em um contexto único vivido nos anos 60 nos Estados Unidos e na Europa.
Algum desavisado pode torcer levemente o nariz e entender que o trabalho de Leibovitz é fútil e completamente comercial. Afinal, ela fez sua fama fotografando pessoas famosas. Neste momento temos que parar e perceber um importante fato daquele momento histórico que foi chamado de Contracultura. Todo o trabalho, tanto da revista Rolling Stone como o de Leibovitz, era vinculado a este movimento ideológico da contracultura. Esta cultura underground tinha um estilo de mobilização e contestação social voltando-se mais para o anti-social das famílias mais conservadoras e do modo tradicional e discriminatório da cultura ocidental. Tudo em nome de um espírito mais libertário. Deste modo, o que eles abordavam foi na contramão do que era produzido comercialmente na época. E esta proposta de transformação da consciência através da mudança de atitude com novos valores de comportamento é visível e, digo mais, inconfundível nas primeiras fotografias de Leibovitz.
Outro ponto que chama muito a atenção é a diversidade do trabalho da fotógrafa. A maioria dos artistas, após encontrar o seu estilo próprio, acaba por permanecer neste estilo único até o final de suas carreiras. Pois, a sua arte é a sua assinatura e jamais poderá ser diferente. É um pensamento digno, mas pouco ousado. Contudo, Leibovitz nos oferece uma vasta diversidade de material começando pelos bastidores de grandes ícones da música passando posteriormente pelo glamour e intimidade das grandes estrelas de Hollywood, peças publicitárias, o vasto e sempre em transformação mundo da moda até os horrores da guerra em Sarajevo.
O documentário mostra a pessoa por trás das lentes em momentos de grande emoção da artista ao relembrar acontecimentos marcantes de sua vida. Os depoimentos de grandes personalidades que foram “capturadas” pelas lentes de Leibovitz oferecem outro olhar sobre a fotógrafa e sua obra.
Do ideológico ao comercial e da ficção a realidade sempre encontramos uma forma diferente de interagir frente ao trabalho de Leibovitz. Como uma “cronista” das imagens ela nos conta histórias e estórias através de suas fotografias. Mesmo quando preocupada com a função social da sua fotografia, na guerra de Sarajevo, ela consegue mostrar poesia no trágico e como diria Eco nos dá uma bela reprodução do feio.
Acima de tudo, o olhar do fotógrafo é sempre um olhar endereçado. Toda a representação por mais elaborada e sofisticada que seja só terá sentido a partir do olhar do outro. Mais importante do que o artista quis dizer com a obra é o que eu posso dizer sobre aquela obra, pois só desta forma haverá a interação. As experiências de vida e o contexto social e cultural de cada indivíduo determinarão o diálogo possível entre aquilo que ele viu e aquilo que ele é capaz de dizer sobre o que foi visto.
Falar sobre fotografia é sempre um desafio principalmente quando entramos na subjetividade do fazer fotografia. Mais do que uma representação técnica que poderíamos esperar de um documentário sobre fotografia temos aqui uma síntese de uma artista e sua arte. A partir dos caminhos apontados e escolhidos por Leibovitz podemos fazer múltiplos questionamentos sobre as funções da fotografia e da profissão do fotógrafo. Estas questões fazem deste documentário algo que merece ser assistido.

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