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sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Caipora

Bom “quem é vivo sempre aparece” diz o ditado. Mas, o fato é que neste último tempo estive, e ainda estou, envolvido na criação e produção de alguns trabalhos teatrais. A partir de uma pesquisa que estava fazendo sobre o folclore nacional acabei escrevendo uma peça teatral, de gênero sertanejo, inspirada nos contos populares do norte e nordeste do país (Os Enganadores).
Neste processo acabei aceitando o convite para escrever uma peça sobre o meio ambiente. Como tinha acabado de escrever um trabalho baseado na cultura popular sertaneja e vinha já a um longo tempo pesquisando os mitos e contos populares de nosso país, resolvi direcionar o trabalho para a cultura popular do Rio Grande do Sul.
Então mais uma vez vou enterrando-me em livros e mais livros, bibliotecas e mais bibliotecas para pesquisar a cultura oral gaúcha. Estudando a termologia e o “dialeto” gaúcho para compor as falas dos personagens. O texto ainda está em construção. Porém, já está repleto de referencias as obras de Simões Lopes Neto, sem perder de vista o seu primeiro objetivo que é o meio ambiente. O nome da peça (provisório) é “Caipora e o Meio Ambiente: um causo gaudério”.
E como a pesquisa faz parte do processo de criação irei publicar aqui alguns dados pesquisados sobre este personagem, o Caipora, da nossa cultura.

No imaginário popular em diferentes regiões do País, a figura do Caipora está intimamente associada à vida da floresta. Ele é o guardião da vida animal. Apronta toda sorte de ciladas para o caçador, sobretudo aquele que abate animais além de suas necessidades. Afugenta as presas, espanca os cães farejadores, e desorienta o caçador simulando os ruídos dos animais da mata. Assobia, estala os galhos e assim dá falsas pistas fazendo com que ele se perca no meio do mato. Mas, de acordo com a crença popular é, sobretudo, nas sextas-feiras, nos domingos e dias santos, quando não se deve sair para a caça, que a sua atividade se intensifica. Mas há um meio de driblá-lo. O Caipora aprecia o fumo. Assim, reza o costume que, antes de sair numa noite de quinta-feira para caçar no mato, deve-se deixar fumo de corda no tronco de uma árvore e dizer: "Toma, Caipora, deixa eu ir embora". A boa sorte de um caçador é atribuída também aos presentes que ele oferece. Assim, por sua vez, os homens encontram um meio de conseguir seduzir esse ente fantástico. Mas, o fracasso na empreitada é atribuído aos ardis da entidade. No sertão do Nordeste, também é comum dizer que alguém está com o Caipora quando atravessa uma fase de empreendimentos mal sucedidos, e de infelicidade.
Há muitas maneiras de descrever afigura que amedronta os homens e que, parece, coloca freios em seus apetites descontrolados pelos animais. Pode ser um pequeno caboclo, com um olho no meio da testa, cocho e que atravessa a mata montado num porco selvagem; um índio de baixa estatura, ágil; um homem peludo, com vasta cabeleira.

As histórias acima fazem parte de um vastíssimo conjunto de nossas tradições populares, que desde o século XIX são alvo de intenso interesse e controvérsias entre antropólogos e estudiosos em geral. Uma das primeiras questões que aguçam a curiosidade é a de saber sobre a origem, embora muitas vezes os elementos estejam tão mesclados e se transformaram de tal forma que fica impossível localizar a fonte original. Indicar hipotética fonte, o que se faz sacrificando o conjunto da narrativa, pouco esclarece sobre as adaptações que sofre no tempo e no espaço, quando migra de uma região para outra e recebe novas influências. De fato, no caso, tanto o termo Mboitatá como Caapora denunciam a tradição indígena.
Mas as escavações para buscar a origem não dão conta de alguns aspectos bastante interessantes. Um deles é perceber que essas, como tantas outras histórias, são narradas em determinadas situações: que situações são essas; quem conta para quem? Será que mesmo na região onde, em princípio, estariam mais arraigadas elas seriam compartilhadas da mesma maneira por todos os habitantes? Não se deve esquecer também que essas narrativas impõem, para os que nela acreditam, certas atitudes e revelam certos sentimentos em relação aos perigos da floresta; elas também costumam servir de justificativas, como é ocaso de um caçador mal sucedido, que pode atribuir a má sorte ao fato de ter deparado com o Caipora.
Em regiões onde prevalece a transmissão oral essas histórias desempenham um papel bastante importante na socialização. Contar e ouvir "causos" é uma atividade lúdica, para passar o tempo livre. Na recreação, os indivíduos vão incorporando os valores do grupo em que vivem, e assim aprendem como proceder quando saem, por exemplo, para caçar. Na história do Caipora é inculcada a idéia de que se deve estabelecer limites no abate as presas, e que em dias santos ou sextas-feiras deve-se evitar a floresta. Outras histórias como a da Cuca, nosso papão do universo infantil, ensina que as crianças devem ir cedo para a cama sem fazer traquinagens antes de dormir. Mas o papel da história contada num grupo de seringueiros ou num grupo de pescadores, sobretudo quando não tem muito contato com a vida na cidade, é distinto do papel dessas mesmas histórias na vida de crianças de classe média que ouviam as histórias de sua babá ou de adultos letrados que as ouvem das fontes nativas, dos pais, das instituições de ensino e da indústria cultural e participariam assim simultaneamente da cultura do povo e da cultura erudita. Mas, mesmo numa mesma região, é possível encontrar ausência de consenso quanto à crença em seres fabulosos. Foi o que ocorreu com o antropólogo Eduardo Galvão, quando esteve, em 1948, numa região do baixo Amazonas. Ao recolher relatos sobre seres sobrenaturais, encontrou tanto depoimentos crédulos, sobretudo de seringueiros e de pescadores, que faziam descrições detalhadas de seus encontros com seres sobrenaturais, quanto a opiniões céticas de moradores que se referiam à crença no Curupira como "abusão de gente mais velha". Ou comentavam: "são apenas lendas". Obteve um relato de um habitante que dizia acreditar no Curupira, embora jamais tivesse tido uma experiência de ordem pessoal com o ente, pois narrava as histórias que lhe foram contadas pelo avô.
Fatos como o descrito acima por Galvão, em Santos e Visagens, indicam que as mesmas histórias são partilhadas pelo povo brasileiro de maneira diferente, numa mesma época ou em épocas e gerações diferentes. Entretanto, pode-se lembrar que essas tradições populares são muitas vezes reivindicadas como um meio de revelar todos os brasileiros ou de identificar o modo de ser, pensar e agir de uma região do país. Seguindo uma tradição que, de acordo com Peter Burke, tem início no final do século XVIII na Europa. Afonso Arinos. em Lendas e Tradições Brasileiras, vê na descoberta da cultura popular a existência de "um opulento tesouro esquecido". E acrescenta: "Explorai-o, colhei a mancheias, que tocareis na fonte verdadeira da vida de nossa raça e ela repetirá convosco o milagre de Fausto". Embora se possa relativizar o tom ufanístico excessivo do escritor mineiro, não resta dúvida de que vários escritores brasileiros da modernidade, como é o caso de Mário de Andrade (Macunaíma), Raul Bopp (Cobra Norato) e Guimarães Rosa (Grande Sertão: Veredas), para mencionar alguns dos mais importantes, estiveram sempre muito atentos às tradições populares brasileiras, o que revela que essas tradições migram e são incorporadas pela cultura erudita.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Palavreado e mais Palavreado


Palavreado e mais Palavreado é o mais recente trabalho cênico realizado pelo ator e diretor Tchakaruga de Paranaguá. O texto, que é uma livre adaptação da obra de Luis Fernando Veríssimo, traz um belíssimo jogo literário onde o autor literalmente brinca com as palavras.
O trabalho é mais uma realização do projeto Teatro Barato que vem atuando junto à comunidade com oficinas ministradas pelo próprio Tchakaruga.
A peça será realizada no dia 1º de setembro (sábado) às 20h na FGB (Fundação Cultural Gema Brasil) que fica na Rua São Caetano nº. 53, centro –São Leopoldo– Em frente à estação São Leopoldo do Metrô. Os ingressos serão vendidos no local por R$ 5,00 (cinco reais) e + 1 kg de alimento não perecível.
Fica aqui o convite para aqueles que puderem prestigiar mais este trabalho cênico produzido em nossa região.

Mais informações podem ser encontradas no site oficial da peça ou no blog Produto Cultural do próprio ator.




Tchakaruga de Paranaguá atua no teatro a mais de 15 (quinze) anos como ator. Nesta jornada já assinou a direção e produção de mais uma dezena de peças. Atualmente mora em São Leopoldo onde trabalha como produtor cultural realizando eventos culturais como Sarau Cultural, evento já bem conhecido pela comunidade capilé, e o MPL (Música Popular Leopoldense).