O briefing parece refinado, mas é potencialmente “aprendido”, não compreendido
Hoje com o avanço das IAs, começo a observar peculiaridades, que podem interferir negativamente, nos processos de design. Percebo, por parte de alguns clientes, o uso de inteligência artificial para “ajudar” a responder os briefings.
O discurso começa a soar como uma
apropriação de um repertório estético contemporâneo. Nos últimos trabalhos que
realizei, o discurso estava muito ligado a uma ideia de design sensível, estética
“slow minimal”, tendências gráficas de editoriais poéticos e um certo
vocabulário curatorial.
Isso não é um problema em si. Mas levanta a dúvida sobre se
estes clientes entendem o valor funcional dessa estética, falo
principalmente no contexto acadêmico onde atuo com mais frequência, ou
se estão apenas pedindo aquilo que “parece elegante”.
Se a imagem é só uma adesão
estilística sem compreensão semântica, corremos o risco de entregar algo que talvez
o cliente “goste” visualmente no primeiro momento, mas que não dialoga bem
com o seu público, e talvez nem represente de forma clara a mensagem que se
pretende passar.
E nesse tipo de trabalho, me refiro aqui aos processos
editoriais acadêmicos, mas não somente a eles, o design existe para comunicar
e não só “ser bonito”.
Nestes anos em que opero no
“mercado acadêmico” percebo que a área da Educação (e boa parte das Humanas)
costuma ter uma relação contraditória com o simbólico. Por um lado, o discurso
valoriza (em alguns casos) sensibilidade, metáforas, estética do cotidiano,
docência como artesania etc. Por outro lado, a leitura visual costuma ser literal,
direta, atrelada ao reconhecimento imediato e menos treinada para abstrações
abertas.
Isso importa porque: Se você entrega algo excessivamente
etéreo, abstrato ou pictórico, a banca (público-alvo inicial) pode interpretar
como “decorativo” ou “pouco comunicativo”. Se você entrega algo literal demais,
perde a poética que o cliente explicitamente pediu com a “ajuda” da IA.
A tensão é estrutural, a academia quer clareza; o cliente
quer poesia.
Como conciliar? Para mim, aqui está o ponto crítico.
A questão é que o briefing, nestes casos, expressa um
desejo estético, mas não necessariamente um entendimento comunicacional.
O papel do designer é garantir que a imagem: expresse
sensibilidade, mas também comunique a temática da pesquisa, de um
jeito que o público consiga decodificar. Se, nestes casos, seguimos literalmente
o briefing, corremos o risco de entregar um resultado que agrada visualmente,
mas que falha no contexto institucional. Por outro lado, se for literal demais,
corre o risco de trair o pedido realizado e cair no óbvio. A síntese é
essencial.
O caminho mais consistente é não ignorar o pedido poético,
mas ancorar a poética em um elemento conceitual reconhecível, mesmo que
sutil. Nestes casos precisamos de um “gancho” interpretativo. Não é
literalidade explícita, isso deve continuar proibido. Mas também
não é abstração total que não remete a nada identificável. A solução mais
sólida é um elemento metafórico, porém reconhecível, que sirva como ponte
entre: a pesquisa, a sensibilidade do que foi solicitado pelo cliente e a
expectativa da banca.

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