Oi, eu sou o Daniel Cunha.

Sou designer gráfico e publicitário, com uma trajetória que une duas áreas que caminham juntas no meu trabalho: História e Comunicação. Desde 2007 atuo lado a lado com professores, pesquisadores e estudantes de pós-graduação — especialmente da área da Educação e das Ciências Humanas. Aqui no Café de Ícaro, compartilho trabalhos, dicas de leitura, opiniões e reflexões sobre os temas que me acompanham no dia a dia. Por ser um espaço pessoal, o blog não segue um único assunto, mas reúne o que considero mais interessante nos processos criativos. Você também encontrará entrevistas, experimentos literários, ilustrações e fotografias para explorar com calma.

sábado, 24 de janeiro de 2026

O uso de inteligência artificial para “ajudar” a responder os briefings

O briefing parece refinado, mas é potencialmente “aprendido”, não compreendido

Hoje com o avanço das IAs, começo a observar peculiaridades, que podem interferir negativamente, nos processos de design. Percebo, por parte de alguns clientes, o uso de inteligência artificial para “ajudar” a responder os briefings.





O discurso começa a soar como uma apropriação de um repertório estético contemporâneo. Nos últimos trabalhos que realizei, o discurso estava muito ligado a uma ideia de design sensível, estética “slow minimal”, tendências gráficas de editoriais poéticos e um certo vocabulário curatorial.

Isso não é um problema em si. Mas levanta a dúvida sobre se estes clientes entendem o valor funcional dessa estética, falo principalmente no contexto acadêmico onde atuo com mais frequência, ou se estão apenas pedindo aquilo que “parece elegante”.

Se a imagem é só uma adesão estilística sem compreensão semântica, corremos o risco de entregar algo que talvez o cliente “goste” visualmente no primeiro momento, mas que não dialoga bem com o seu público, e talvez nem represente de forma clara a mensagem que se pretende passar.

E nesse tipo de trabalho, me refiro aqui aos processos editoriais acadêmicos, mas não somente a eles, o design existe para comunicar e não só “ser bonito”.

Nestes anos em que opero no “mercado acadêmico” percebo que a área da Educação (e boa parte das Humanas) costuma ter uma relação contraditória com o simbólico. Por um lado, o discurso valoriza (em alguns casos) sensibilidade, metáforas, estética do cotidiano, docência como artesania etc. Por outro lado, a leitura visual costuma ser literal, direta, atrelada ao reconhecimento imediato e menos treinada para abstrações abertas.

Isso importa porque: Se você entrega algo excessivamente etéreo, abstrato ou pictórico, a banca (público-alvo inicial) pode interpretar como “decorativo” ou “pouco comunicativo”. Se você entrega algo literal demais, perde a poética que o cliente explicitamente pediu com a “ajuda” da IA.

A tensão é estrutural, a academia quer clareza; o cliente quer poesia.

Como conciliar? Para mim, aqui está o ponto crítico.

A questão é que o briefing, nestes casos, expressa um desejo estético, mas não necessariamente um entendimento comunicacional.

O papel do designer é garantir que a imagem: expresse sensibilidade, mas também comunique a temática da pesquisa, de um jeito que o público consiga decodificar. Se, nestes casos, seguimos literalmente o briefing, corremos o risco de entregar um resultado que agrada visualmente, mas que falha no contexto institucional. Por outro lado, se for literal demais, corre o risco de trair o pedido realizado e cair no óbvio. A síntese é essencial.

O caminho mais consistente é não ignorar o pedido poético, mas ancorar a poética em um elemento conceitual reconhecível, mesmo que sutil. Nestes casos precisamos de um “gancho” interpretativo. Não é literalidade explícita, isso deve continuar proibido. Mas também não é abstração total que não remete a nada identificável. A solução mais sólida é um elemento metafórico, porém reconhecível, que sirva como ponte entre: a pesquisa, a sensibilidade do que foi solicitado pelo cliente e a expectativa da banca.


sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Satanás

“Satanás”, de Gibran Khalil Gibran:
uma obra essencial e sua adaptação para dramaturgia

A publicação digital de Satanás integra uma iniciativa de circulação gratuita dentro da coleção Dramaturgias Escape, vinculada à revista literária Escape. O texto, originalmente um conto de Gibran Khalil Gibran, recebe aqui uma adaptação teatral e um novo formato editorial voltado especificamente para leitura em dispositivos móveis. O resultado é um encontro entre tradição literária, reflexão filosófica e experimentação cênica.



A importância de Gibran Khalil Gibran

Gibran Khalil Gibran (1883–1931) nasceu em Bicharre, no Líbano, em meio aos cedros milenares que mais tarde ocupariam lugar simbólico em parte de sua obra. Emigrou jovem para os Estados Unidos, onde desenvolveu sua carreira como escritor, poeta, pensador e artista plástico. Tornou-se internacionalmente conhecido por O Profeta, mas sua produção é mais ampla e inclui reflexões espirituais, contos, aforismos, textos filosóficos e obras visuais.

A crítica costuma apontar Gibran como um autor que transita entre o misticismo oriental e a sensibilidade moderna ocidental. Sua escrita privilegia temas como liberdade, sentido moral, espiritualidade e a condição humana, sempre em linguagem lírica e simbólica. O livro Temporais (1920), do qual Satanás faz parte, é considerado por alguns autores e tradutores, como Mansour Challita, uma das obras mais contundentes do período árabe de sua produção.

Sobre o conto “Satanás”

No texto original, Gibran revisita a figura de Satanás não como entidade exclusivamente maléfica, mas como força necessária para que o ser humano compreenda a si mesmo. Em termos simbólicos, o conto funciona como uma análise das tensões entre “bem” e “mal”, de como essas categorias se constroem socialmente e de como dependem uma da outra para existir.

A narrativa parte de uma situação emblemática: o padre Simão, conhecedor dos “mistérios” do pecado e do inferno, encontra na beira da estrada um homem ferido que clama por ajuda. Depois de hesitar e tentar ignorá-lo, descobre que o ferido se apresenta como o próprio Satanás. A partir desse encontro, segue-se um diálogo sobre a origem das crenças religiosas, a invenção das figuras do sagrado e do profano, e a função simbólica do demônio para a ordem social e para a própria sobrevivência das instituições religiosas.

O texto alterna momentos de dramaticidade e ironia, expondo contradições do clero, a historicidade das narrativas espirituais e a ambivalência humana.

A adaptação teatral preserva essas camadas e as reorganiza para a cena, destacando gestos, falas e transições entre narrativa e ação dramática.

A iniciativa da adaptação e a editoração

O PDF apresentado reúne o conto adaptado em formato de peça, com separação de falas, indicações cênicas e ritmo dramatúrgico. A edição foi produzida para leitura fluida em telas menores, oferecendo:

  • formatação enxuta e verticalizada;
  • organização de páginas que facilita alternância entre narração e diálogo;
  • integração com imagens de Paul Klee;
  • instruções claras sobre direitos de uso, com circulação digital gratuita.

A adaptação busca manter a voz de Gibran ao mesmo tempo em que o reposiciona no espaço do palco. A narrativa do padre Simão e de Satanás ganha contornos performativos, permitindo que o texto circule não apenas como literatura, mas como potencial material de montagem teatral.

A dramaturgia e a proposta da coleção “Dramaturgias Escape”

A revista digital Escape é um projeto editorial dedicado à literatura, dramaturgia, ensaio, poesia e artes. Seu objetivo é oferecer espaço para produções independentes, circulação de textos experimentais e divulgação gratuita de materiais que dialogam com criação artística e pensamento contemporâneo.

Entre suas coleções está Dramaturgias Escape, na qual se insere esta adaptação de Satanás. A coleção reúne textos teatrais originais ou adaptados, oferecendo acesso aberto para estudantes, artistas, pesquisadores, grupos de teatro e leitores interessados em dramaturgia. Trata-se de uma iniciativa de difusão cultural que rompe barreiras de acesso e incentiva o compartilhamento criativo.

O volume de Satanás representa bem essa proposta: uma obra literária clássica é relida, reformatada e disponibilizada em um modelo que permite novas interpretações, usos e montagens, mantendo o compromisso de gratuidade e circulação ampliada.

A relevância desta publicação

Publicar Satanás em formato digital e gratuito cumpre três funções importantes:

  1. Resgatar um texto relevante da obra de Gibran, que trata de questões éticas e simbólicas de modo provocativo.
  2. Ampliar o campo de acesso, permitindo que leitores e artistas tenham contato com a obra em um formato de fácil leitura no celular.
  3. Fortalecer o catálogo da revista Escape, que se posiciona como espaço de circulação literária e artística independente.

Ao unir tradição literária e edição digital contemporânea, esta publicação amplia o alcance de Gibran e contribui para a reflexão estética e filosófica, tanto para leitores comuns quanto para criadores da cena teatral.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Café de Ícaro — um recomeço

Em 2007, quando criei o Café de Ícaro, o cenário digital era bem diferente. Os blogs ainda ocupavam um lugar expressivo, uma espécie de praça pública descentralizada, onde cada pessoa erguia seu próprio canto para conversar, mostrar projetos, divagar ou simplesmente experimentar a escrita. As redes sociais existiam, claro, mas ainda não tinham engolido todos os espaços. Havia algo de mais silencioso e, de certo modo, mais íntimo na internet daquela época.




Foi nesse período que eu morava em São Leopoldo. E foi lá, entre trabalhos, prazos e conversas de corredor, que convivi com um tipo muito específico de ambiente: pessoas talentosas, mas frequentemente marcadas por uma postura arrogante, certa altivez que se impunha antes mesmo das ideias. Não foi simples lidar com isso, embora tenha sido um aprendizado curioso.

A partir dessas experiências surgiu o nome Café de Ícaro. Afinal, muitos dos encontros que inspiraram o blog aconteciam literalmente em cafés: mesas onde projetos começavam, conversas se desdobravam e, às vezes, divergências também apareciam. Já Ícaro entrou como metáfora inevitável: havia sempre um movimento de voar alto demais, como se cada troca estivesse carregada de disputas de ego, uma espécie de necessidade constante de provar quem chegava mais perto do sol. O nome acabou se tornando uma pequena ironia, mas também um lembrete sobre a importância de manter algum humor diante das vaidades humanas.

Agora, final de 2025, decidi fazer uma limpeza completa nos arquivos e recomeçar. Não por rejeição ao passado, mas porque a proposta do blog mudou e eu também mudei. Hoje, o Café de Ícaro deixa de ser um reflexo daquele ambiente inicial e passa a ser um espaço meu por inteiro. Um lugar mais aberto, dedicado às produções independentes, às criações que surgem do tempo de maturação, aos experimentos que não precisam caber em prateleiras rígidas.

A partir daqui, você vai encontrar por aqui literatura em diferentes camadas: poemas, ensaios, ficções, textos híbridos e projetos que venho desenvolvendo ao longo dos anos. Também haverá espaço para quadrinhos, ilustrações, fotografia, reflexões sobre arte e cultura e, sempre que fizer sentido, entrevistas e conversas com outras pessoas que também orbitam esse universo criativo.

Este artigo serve como porta de entrada para essa nova fase. O Café de Ícaro continua sendo um lugar para diálogos, mas agora diálogos mais amplos, mais livres, menos atravessados pelas sombras daquele período de origem. Um espaço para pousar e observar, mas também para permitir algum voo. Sem o sol tão perto desta vez.